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    Família, o que nos dá força para prosseguir

    15 de maio de 2013 . 15:15
    Atualizado em 15 de maio de 2013 . 16:08

    O meu nome é Gláucia Ferraz Silva Mocco, sou tia do Heitor, irmã da Jeane. Meu sobrinho foi muito esperado por nossa família, acompanhamos a gestação da Jeane, que transcorreu de forma tranquila e saudável. Somente no 8º mês, quando ela fez mais uma ultrassonografia e o Doppler (exame utilizado para monitorar o fluxo sanguíneo do bebê e conferir se os principais órgãos do feto estão com o nível de oxigenação adequado e funcionamento satisfatório), que se constatou que o Heitor estava com o peso abaixo da média desse período gestacional.

    No início do 9° mês ela repetiu os exames, o Heitor estava com apenas 300 gramas a mais que o resultado anterior. Por isso, os médicos optaram por adiantar a data do nascimento, visto que ele teria mais chances de ganhar peso no hospital.  O que sabíamos, até então, é que o Heitor nasceria pequeno e que, provavelmente, iria para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

    Tudo ocorreu bem no parto. Mas para minha irmã, foi muito difícil deixar o hospital sem levar o Heitor, pois uma mãe, ao dar à luz, espera voltar para casa com seu filho nos braços. Porém, ele ficou internado por quatro meses. A Jeane o visitava todos os dias – acho que ela era a primeira a chegar e a última a sair do hospital.

    Após seu nascimento, percebemos que o Heitor era diferente, mas acreditávamos que isso se devia ao fato dele ser prematuro, de pesar apenas 1,6 kg. Não imaginávamos que ele pudesse ser portador de alguma doença, talvez por não possuirmos conhecimento e nem termos passado por situações semelhantes. O resultado do exame de cariótipo – exame que permite uma análise dos cromossomos humanos – demorou um mês para ficar pronto.

    Enquanto isso, nós íamos para o hospital toda terça-feira, quando os demais familiares também podiam visitar os nenéns. As famílias dos bebês internos da UTI se reuniam, levavam lanche e tinham a oportunidade de compartilhar o que estavam vivendo. Cada um fazia um agradecimento, uma oração, dava uma palavra de apoio. Eram momentos muito bons. Conhecer pessoas que passavam por situações difíceis como a nossa, mas que continuavam lutando, nos dava força.

    Glaucia_montagem

    Então o exame de cariótipo ficou pronto, eu e meu marido acompanhamos minha irmã à consulta com a geneticista, pois o Darcy havia viajado a trabalho. Foi um momento muito doloroso, a médica nos deu o resultado de maneira abrupta, disse que o Heitor tinha uma síndrome grave, que ele viveria por pouco tempo, que ele nunca andaria, seria sempre dependente. Jeane apenas chorava, sua única reação foi perguntar se ela, enquanto mãe, não poderia estimular seu filho de alguma forma. A médica lhe respondeu enfaticamente: “não, não se trata de estímulo, é erro de cromossomos, é genético e não há recurso”. Foi horrível.

    Fiquei indignada com a médica, não sabíamos o que era Síndrome de Edwards, mas ela nos contou como se aquilo fosse algo comum e corriqueiro, como se conversasse com um de seus colegas de profissão. Saímos aos prantos do consultório, não conseguíamos fazer nada além de chorar. Então disse para minha irmã: temos duas opções, podemos esquecer que fomos a essa médica, seguir acreditando que ele tem direito a viver e por isso darmos o melhor que pudermos para ele, ou então, podemos dar ouvidos aquilo tudo e não reagir.

    Determinamos que a partir daquele momento viveríamos um dia de cada vez, não faríamos planos, mas sim, daríamos todo o nosso amor e carinho ao Heitor, enquanto Deus quisesse mantê-lo conosco, continuaríamos dando ao Heitor o nosso melhor. Eu acreditava que meu sobrinho nos ensinaria muito, principalmente a quebrar as barreiras, os paradigmas e a superar diagnósticos. Sofremos muito, mas decidimos vivenciar cada instante como se fosse único, não apenas com o Heitor, mas com toda a nossa família. E essa foi uma das grandes lições que recebemos com a chegada do Heitor em nossas vidas.

    Apesar disso, foi muito doloroso retornar ao hospital sabendo o diagnóstico, olhar aquela criança e lembrar-se de tudo o que a médica disse. Porque uma coisa é você olhar sem saber o que ele tem, outra é você saber. Infelizmente o olhar é diferente, é inevitável. Porque lemos e ouvimos coisas muito fortes, principalmente da especialista. Porém, aos poucos, conseguimos nos recuperar.

    No segundo dia após recebermos o diagnóstico a dor já era menor, e diminuiu ainda mais com o passar do tempo. O Heitor passou por uma série de problemas, exames, cirurgias. Mas vencemos cada batalha, uma após a outra. E toda a família, meu filho, nosso pai, nossos irmãos, começaram a frequentar o hospital e visitar o Heitor. Aos poucos todos se envolveram.

    Quando o Heitor recebeu alta, para nós, foi como se ele tivesse nascido naquele dia. Ele tinha os olhinhos arregalados, como quem deseja apreender tudo ao redor. Era visível que ele tinha uma vontade enorme de viver.

    Glaucia_montagem 2

    Quando o Heitor recebeu alta, era visível sua vontade enorme de viver

    E assim, o menino que viveria apenas alguns dias, já está conosco há sete anos. Com ele aprendemos a ultrapassar uma barreira de cada vez, a enfrentar todos os nossos medos conforme surjam. Aprendemos a dar um passo após o outro. E, nesse processo, temos a certeza de que a família é a base de tudo. É o que nos dá força para continuar nessa caminhada. E o Heitor é o reflexo de toda essa energia, é o resultado do estímulo dado pela família que temos.

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4 respostas para “Família, o que nos dá força para prosseguir”

  1. Jeane Andreia Ferraz Silva disse:

    Tia Gal,
    Agradecemos todos os dias por você existir em nossas vidas. A sua alegria e esperança na vida nos dá força para continuar nesta caminhada. Você é mais que uma irmã, é uma amiga, uma companheira, minha irmã caçula que me acompanhava na minha adolescência… Hoje você cuida muito de mim. Obrigada por ser tudo isso e muito mais (não tenho palavras para descrever sentimentos tão fortes que nos une). Te amo. Jeane

  2. Janine Rodrigues disse:

    Parabéns Gláucia, Jeane e toda família que juntas formam uma corrente de amor, superação e evolução. Heitor é um campeão!!! Bjs saudades!

  3. Maria Emilia Passamani disse:

    Que depoimento emocionante! Parabéns a essa familia cheia de fé e amor! Sou testemunha dessa história linda de amor, dedicação, superação …que Deus permaneça entre vcs ! Bjs

  4. Jeane Andreia Ferraz Silva disse:

    Emília e Janine,
    Obrigada pela carinho. Também a cada dia temos mais força por termos pessoas como vocês que torcem por nós e oram sempre por nós. Beijos. Jeane

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