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    Indagações de uma mãe sobre inclusão escolar

    23 de abril de 2013 . 15:23
    Atualizado em 24 de abril de 2013 . 10:23

    Chamo-me Graça, sou mãe de Anderson, uma pessoa muito especial, pois ele consegue preencher todos os nossos momentos com muitas indagações e reflexões sobre a condução de sua vida. Também sou pedagoga e trabalho com crianças que estão no início de seu processo de aprendizagem.
    No decorrer da minha vida profissional e pessoal observo que as crianças no início de sua vida escolar não evidenciam grandes diferenças de uma criança especial para uma criança dita normal, considerando que neste período elas estão desenvolvendo seus movimentos, sua linguagem oral, seu pensamento lógico e cognitivo. Nesse sentido elas interagem sem fazer tipos de distinção ou classificação. Para elas, criança é criança.
    Este período ajudou para que a inserção do meu filho na vida escolar não fosse traumática. Anderson, hoje com 22 anos, nasceu com um atraso em sua idade mental, motora e na fala detectado quando tinha dois anos de idade. Desde o diagnóstico, ele foi acompanhado por vários especialistas, como neurologista, fonoaudióloga, psicóloga, psicopedagoga e fisioterapeuta, porém hoje ele é acompanhado por fonoaudióloga e neurologista, que o auxiliam e colaboram para seu melhor desenvolvimento em todas as etapas que vivencia.
    Retomando ao período em que ele vivenciava seu processo de alfabetização, observei que a partir deste é que a dificuldade de aprendizado da criança especial começa a se destacar. Quando chega à terceira série, por exemplo, ela não consegue atingir o mesmo nível de amadurecimento cognitivo que os seus colegas de classe, devido à complexidade e o quantitativo de informações das disciplinas. No caso do meu filho, meu marido e eu observamos que, a partir da quinta série, esta dificuldade acelerou ainda mais, ele não conseguia acompanhar o ritmo dos colegas e apreender os conteúdos ministrados em sala de aula.
    Acreditamos que isto se deu porque até a quarta série, as disciplinas eram trabalhadas por um único profissional, sendo ele responsável por atuar integralmente com a turma, passando assim mais tempo com o Anderson. Nesse sentido, ele tinha uma condição de perceber melhor as limitações do meu filho e trabalhar de forma mais intensa sobre elas. Diferentemente da quinta série, em que ele passou a ter vários professores. Nesse contexto, é muito complicado manter uma referência em meio a tantos profissionais, com perfis diferentes e maneiras adversas de tratar o aluno. Logo, acreditamos que isso também ajudou a influenciar nas dificuldades de aprendizagem do Anderson.
    Dessa maneira, ele ficou cada vez mais “distante” da escola. Nesse momento, o nosso maior papel foi manter o incentivo. Conversávamos muito com Anderson e lhe dávamos nosso total apoio, para evitar que desistisse ou estagnasse em uma determinada série. Visto que isso o faria questionar ainda mais, sobre o porquê de seus amigos aprenderem e passarem de ano enquanto ele não.
    Para o meu filho, o momento mais difícil foi durante o ensino médio. Na maioria das escolas, esse é o período de preparação para o vestibular e o mercado de trabalho. Sabemos que uma pessoa com deficiência tem suas limitações e, às vezes, não está preparada emocionalmente para encarar essa pressão. E, talvez por isso, o Anderson me pedia muito para tirá-lo da escola, uma vez que o “distanciamento” dessa realidade o incomodava muito. Mas, com muito esforço, ele concluiu seus estudos.
    E foi durante esse momento, como mãe, que comecei a me indagar: qual mercado de trabalho há para essas pessoas? O que, de fato, a escola pretende ao prepará-las? Como acontecerá essa profissionalização e a inclusão dessas pessoas nesse ambiente? Quais são as políticas públicas e privadas pensadas especialmente para as pessoas especiais? Porque sabemos que elas possuem limitações, que aprendem em um ritmo distinto dos demais. Portanto, a inclusão não deve ser pensada apenas na permanência dessas crianças na escola, mas também na saída desses jovens preparados para exercer sua cidadania.
    Ressalto que estudar o assunto e discutir políticas que estão voltadas para o processo de inclusão é muito importantes para as crianças, jovens e adultos especiais. Portanto, não adianta termos uma fórmula pronta e aplicá-la para todos da mesma maneira. Devemos sim, levar em consideração as particularidades de cada indivíduo, para definir quais as possibilidades e mecanismos utilizar, visando desenvolver melhor o trabalho e potencializar os pontos positivos dessas crianças, jovens e adultos que são sujeitos de direito de nossa sociedade.

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